quarta-feira, 17 de junho de 2009

Partilha

"Quando alguém encontra algo muito precioso, como um diamante esculpido por milénios de civilização e História, pode ter dois tipos de atitude; ou guarda essa jóia num maravilhoso cofre fechado a sete chaves para se poder deliciar em exclusivo com a sua descoberta; ou resolve partilhar o seu tesouro com todos aqueles a quem se pode chamar amigo, também esses guardados no lado esquerdo do peito, esse é o cofre para guardar as melhores coisas do mundo."
Renata Sena, Swásthya Yôga

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Desenhos animados na oficina

Na UCCLA de Bissau, como em muitas outras escolas da Guiné, as aulas começam às 8h. A campainha é geralmente uma jante de automóvel pendurada numa árvore ou na parede de uma sala, dependendo da escola. Quando a sineta toca, os alunos entram para as suas salas prontinhos para mais um dia de aulas. Cada dia de aulas do ensino básico público tem, em média, 3h30. Nesta escola,a funcionar em autogestão, a maioria dos alunos vem, claramente, de um meio com mais possibilidades que os alunos das outras escolas onde eu trabalho. Aqui há mesas e cadeiras, enquanto que nas outras escolas há carteiras de madeira com o banco agarrado, igualinhas às do meu Jardim-Escola João de Deus em Tomar. Na UCCLA de Bissau as turmas têm em média 30 alunos, enquanto que nas restantes escolas do ensino básico têm cerca de 40. Nos liceus há turmas de 50 alunos. As aulas nesta escola começaram em Setembro e decorreram sem interrupções até agora. As aulas nos liceus começaram a meio de Janeiro, houve muitas greves até à Páscoa e entre a Páscoa e finais de Maio, estiveram em boicote.
As crianças das quatro turmas da 3ª e 4ª classes da UCCLA com que trabalhamos já conhecem a rotina e estão sempre à espreita que as brancas os venham buscar para os levar até à oficina. Entramos na sala e recebemos a saudação automatizada em coro perfeitamente ensaiada e que todos os alunos da Guíné dizem: "Bom dia senhora professora, como está?", à qual respondemos também em coro "estamos bem, e vocês?", e a resposta é invariavelmente "estamos bem". "Querem ir para a oficina?" - "SIM!" E lá vamos todos em fila para a oficina, às vezes a marchar.
Depois de um ano lectivo inteiro com actividades artísticas relacionadas com a sensibilização para a higiene, limpeza e preservação dos espaços, a última ida à oficina em Língua Portuguesa da UCCLA ofereceu desenhos animados com o Mickey, o Pateta, o Donald e muitas outras personagens que fizeram soar gargalhadas e sorrisos neste último dia em que conseguimos que ligassem o gerador da escola para termos electricidade durante toda a manhã.
O olhar atento dos miúdos não os deixou desconcentrar ao ver a máquina fotográfica, que geralmente tem o efeito de puxar todas as atenções. Mas desta vez não, a televisão era muito mais emocionante!
Tenho muitas dúvidas em relação à descodificação da maioria das mensagens orais e visuais por parte dos alunos e até dos adultos. Há muitos estereótipos que são difíceis de descodificar, as falas são demasiado rápidas e as imagens nem sempre são familiares aos guineenses, mas a verdade é que os desenhos animados fazem um sucesso inimaginável!
As personagens morrem e voltam a viver, caem e levantam-se e estão sempre a magoar-se e, em cada um desses momentos, as gargalhadas fazem-se ouvir em toda a oficina.
Com a mesma ânsia com que eu ficava quando ouvia a música da Warner Bros em criança, os alunos olhavam sempre para nós a interrogar-se silenciosamente e a torcer para poderem ver mais um episódio. Foi uma manhã muito bem passada, sobretudo porque já tinha saudades destas aventuras da Disney. Nas despedidas a cada turma ficou a promessa de, no próximo ano, regressarmos às actividades na oficina. E eles prometeram estudar muito para as provas finais!

Silêncio

O silêncio acordou-me.
O silêncio matinal sussurrou-me ao ouvido que algo não estava bem. O silêncio manteve-me semi-acordada, naquele estado dormente entre os dois mundos separados por uma ténue linha, entre o despertar e o dormir mais uns minutos, só mais uns minutos. Mas o silêncio invadia o meu quarto e fez-me ficar inquieta até me levantar ainda antes das 8h da manhã. A vida lá fora parecia estranha... Os barulhos matinais que invariavelmente povoam a rua e o café simplesmente não existiam. Pouco depois das 8h recebo um telefonema a dizer que tinham assassinado um candidato às presidenciais. Oh não! Outra vez... Não ouvi barulhos de tiros nem bombas durante mais uma noite de assassínios. Não me levantei da cama num salto ao ouvir uma explosão na rua de trás, como aconteceu em Novembro e Março. Desta vez não acordei com o som inequívoco de tiros e explosões. Acordei com o silêncio que invadiu as ruas de Bissau nas primeiras horas da manhã. Poucas horas depois já eram duas as vítimas das movimentações da noite. Em seguida já eram quatro mortos e pouco depois eram cinco, mas afinal o quinto não morreu, foi detido. O dia foi passando e a cidade retomou a sua "normalidade". A maioria das lojas e mercados estavam a funcionar normalmente, mas as escolas estavam desertas. Os professores que apareceram disseram que não estavam em condições psicológicas para leccionar. Os guineenses encaram mais um dia que amanhece com sangue com o mesmo espírito de esperança que os faz levantar todos os outros dias. A imagem que guardo destes dias pós-assassínios é marcada pelos rádios com a antena esticada e colados ao ouvido, à espera das notícias mais recentes.

Os dias que se seguiram foram marcados por uma calma aparente à qual não me consigo habituar. Aparentemente está tudo normal, tudo calmo, há poucos militares pelas ruas e os professores retomaram as suas funções nas escolas. Não há, por agora, razões para alarmismos. Nós, brancos, não somos o alvo e isso faz-me sentir mais segura, mas não deixo de me sentir apreensiva por todos aqueles que pertencem a esta terra e que já viram demasiados anos de guerras e conflitos. Nestes dias e nos outros também, percebo o porquê de estar aqui e de aqui querer continuar, até ter algo de positivo a dar e também a receber.
Em termos de trabalho, os assassínios da madrugada de 6ª feira fizeram com que fosse cancelada a pintura do mural da Escola Limpa no Estádio Lino Correia, que estava marcada para sábado de manhã. O muro tem 50 metros de comprimento e estavam envolvidas cerca de 50 crianças e jovens e também alguns colaboradores e professores. Se eu acreditasse em coincidências, diria que foi coincidência ter chovido na madrugada do dia das pinturas, o que nos iria fazer cancelar a pintura no próprio dia. Assim, com tiros e chuva, o muro continua branquinho e arranjadinho à espera das tintas que lhe vão dar vida no dia 14, "se Deus quiser", como disseram os alunos que marcaram presença às 8h da manhã e a quem entregámos um "kit de suborno" para não se esquecerem da nova data. De carderno na mão, lápis, borracha e régua, cada um afastou-se da parede que continua despida de cor... Por pouco tempo!